Imobiliário & Construção · Regularizar o imóvel

Comprei e nunca passei a escritura: contrato de gaveta e adjudicação compulsória


Por Frede Sá de Moura · Sócio · Advogado · OAB/MG 151.651 · OAB/GO 58.362Atualizado em 23/10/2026

Resposta direta

O contrato de gaveta vale entre as partes, mas, enquanto o imóvel não é registrado em nome do comprador, ele não é o dono perante terceiros (CC, art. 1.245), e o bem pode ser penhorado por dívida do vendedor. Se o vendedor se recusa a outorgar a escritura, desapareceu ou faleceu, cabe a adjudicação compulsória, na Justiça ou no cartório de registro de imóveis (Lei 6.015/1973, art. 216-B, incluído pela Lei 14.382/2022).

Prazos e marcos legais

  • Exigir a escritura definitiva ou a adjudicaçãonão prescreve, salvo se configurada a usucapião (STJ, REsp 2.196.855/RJ (2026))
  • Notificação do vendedor pelo registro de imóveis (adjudicação extrajudicial)15 dias úteis para anuir ou impugnar (a Lei 6.015, art. 216-B, § 1º, II, fala em 15 dias) (Provimento CNJ 149/2023, arts. 440-S, III, e 440-Z · Lei 6.015/1973, art. 216-B, § 1º, II)
  • Comprovar o pagamento do ITBI na adjudicação extrajudicial5 dias úteis da notificação do oficial, antes do registro (Lei 6.015/1973, art. 216-B, § 1º, V · Provimento CNJ 149/2023, art. 440-AL)
  • Embargos de terceiro se o imóvel for penhorado por dívida do vendedoraté 5 dias após a adjudicação, a alienação por iniciativa particular ou a arrematação, antes da carta (CPC, art. 675 · Súmula 84 do STJ)

Prazos e marcos conferidos na lei federal, nos atos do CNJ e na jurisprudência indicada. Exigências municipais (código de obras, taxas) e estaduais (normas dos cartórios) variam; a análise do caso confirma quais se aplicam.

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Isso está acontecendo com você?

  • você comprou o imóvel há anos e ele continua no nome do vendedor
  • só tem um "contrato de gaveta", recibo ou compromisso sem registro
  • o vendedor morreu, mudou-se, sumiu ou se recusa a passar a escritura
  • apareceu penhora, hipoteca ou dívida do vendedor na matrícula do seu imóvel
  • você quer vender, financiar ou dar o imóvel em garantia e não consegue
  • a compra foi feita por sucessivos "repasses de gaveta" e a cadeia está incompleta

O que é o contrato de gaveta e por que ele é frágil

Contrato de gaveta é o nome popular do compromisso ou contrato de compra e venda que não foi levado a registro: a pessoa pagou, recebeu as chaves e passou a morar, mas o imóvel continua registrado em nome do vendedor. Entre comprador e vendedor o contrato é válido e obriga as partes; o problema é perante terceiros. No sistema brasileiro, a propriedade imóvel só se transfere pelo registro do título (CC, art. 1.245): quem não registrou o título não é dono perante terceiros.

A fragilidade é concreta: enquanto o imóvel figura em nome do vendedor, responde pelas dívidas dele e pode ser penhorado em execução contra o vendedor, hipotecado ou arrolado no inventário, se ele falecer. O risco cresce com o tempo, porque cada nova dívida do vendedor pode alcançar o imóvel já pago.

O que o compromisso de compra e venda assegura ao comprador

O compromisso de compra e venda sem cláusula de arrependimento, quando registrado, confere ao promitente comprador direito real à aquisição do imóvel, oponível a terceiros (CC, art. 1.417); quitado o preço, ele pode exigir a outorga da escritura definitiva e, havendo recusa, a adjudicação (CC, art. 1.418). A quitação deve ser integral: o STJ não aplica à adjudicação a teoria do adimplemento substancial (REsp 2.207.433/SP). Mesmo sem registro, a posse decorrente do compromisso é protegida: o STJ admite embargos de terceiro fundados nessa posse (Súmula 84), de modo que, se o imóvel for penhorado por dívida do vendedor, o comprador pode defendê-lo.

Além disso, a Súmula 239 do STJ afirma que o direito à adjudicação compulsória não se condiciona ao registro do compromisso. O comprador pode, assim, obter a transferência do imóvel contra o vendedor, ou contra quem o suceda, ainda que o contrato nunca tenha sido registrado. É o principal instrumento para converter o contrato de gaveta em propriedade registrada, e, segundo o STJ, a pretensão de obter a escritura definitiva não se sujeita a prazo prescricional, salvo se configurada a prescrição aquisitiva amparada em usucapião (entendimento consolidado, aplicado no REsp 2.196.855/RJ, 3ª Turma, 2026, que o estendeu à indenização por perdas e danos quando a obrigação de fazer não puder ser cumprida de modo específico).

Adjudicação compulsória: judicial e, agora, também no cartório

Quando o vendedor se recusa, sumiu ou morreu, a adjudicação compulsória supre a vontade dele: o juiz (ou, hoje, o registrador) determina a transferência do imóvel ao comprador que cumpriu a sua parte. Pela via judicial, obtida a sentença, ela substitui a escritura e permite o registro. Desde a Lei 14.382/2022, existe também a adjudicação compulsória extrajudicial, feita diretamente no cartório de registro de imóveis (art. 216-B da Lei 6.015/1973), regulamentada pelo CNJ (Provimento 149/2023, arts. 440-A a 440-AM, incluídos pelo Provimento 150/2023), cabível quando a documentação está completa e não há litígio quanto ao pagamento.

Para qualquer das vias, prepara-se a prova do negócio e da quitação: o contrato/compromisso, os comprovantes de pagamento, a cadeia de repasses (se houver), a notificação do vendedor, que na via extrajudicial é feita pelo próprio registro de imóveis, com prazo de 15 dias úteis para anuir ou impugnar (Provimento CNJ 149/2023, arts. 440-S, III, e 440-Z; a Lei 6.015/1973, art. 216-B, § 1º, II, exige a notificação extrajudicial como prova do inadimplemento) e as certidões. Recolhe-se o ITBI, tributo municipal devido na transmissão (CTN, art. 35), para viabilizar o registro. O resultado é o registro do imóvel em nome do comprador.

Se o vendedor morreu, sumiu ou é uma empresa extinta

A morte do vendedor não impede a regularização: a adjudicação é proposta contra o espólio e os herdeiros, que são obrigados a outorgar a escritura que o falecido deveria ter dado. Se o vendedor está em local incerto, cita-se por edital; se é uma empresa extinta, buscam-se os sucessores e, na via extrajudicial, a notificação vai ao liquidante ou ao último administrador conhecido, ou é feita por edital (Provimento CNJ 149/2023, art. 440-U). No cartório, falecido o vendedor sem inventário aberto, notificam-se os herdeiros; havendo inventário, o inventariante (art. 440-W). Em cadeias de "gaveta sobre gaveta" (vários repasses sem registro), reconstitui-se a corrente de contratos para adjudicar do titular registral ao comprador atual.

Cada uma dessas situações tem particularidades, e o que muda de uma para outra é a complexidade da prova e do rito. Enquanto o imóvel permanece em nome de terceiro, penhoras, inventário ou novas dívidas do titular podem alcançá-lo, o que torna a regularização mais trabalhosa.

O registro e a fraude à execução

Enquanto o imóvel está no nome do vendedor, uma execução contra ele pode alcançar o bem, e discussões sobre fraude à execução (CPC, art. 792) e boa-fé do comprador tornam-se inevitáveis, e cabe ao comprador provar, em embargos de terceiro, que comprou antes e de boa-fé. Registrar o título elimina essa exposição: a partir do registro, o imóvel pertence ao comprador perante todos, e as dívidas posteriores do antigo dono não o atingem. Os temas conexos têm páginas próprias: outorga de escritura, fraude à execução, embargos de terceiro e análise de matrícula.

Base jurídica

TemaFonte oficial
Propriedade imóvel transfere-se pelo registroCC, art. 1.245
Direito real do promitente comprador e outorga da escrituraCC, arts. 1.417 e 1.418
Adjudicação compulsória independe de registro do compromissoSúmula 239 do STJ
Embargos de terceiro com base na posse do compromissoSúmula 84 do STJ
Adjudicação compulsória extrajudicial no cartórioLei 6.015/1973, art. 216-B (Lei 14.382/2022) · Provimento CNJ 149/2023, arts. 440-A a 440-AM
ITBI: fato gerador e base de cálculoCTN, arts. 35 e 38 (LC 227/2026) · lei municipal
Fraude à execução enquanto o bem está no nome do vendedorCPC, art. 792
Herança: obrigações do falecido transmitem-se aos herdeirosCC, arts. 1.784, 1.792 e 1.997
Quitação integral e imprescritibilidade da adjudicaçãoSTJ, REsp 2.207.433/SP e REsp 2.196.855/RJ

Fontes oficiais citadas a título informativo (Prov. 205/2021 CFOAB). Cada caso depende de análise individual.

Como conduzimos um caso assim

  1. 1Análise do contrato ou compromisso, dos comprovantes de pagamento, da cadeia de repasses e da matrícula, para definir a via (extrajudicial, no cartório, ou judicial) e verificar riscos pendentes.
  2. 2Notificação do vendedor, ou dos herdeiros e sucessores, para outorgar a escritura e, na recusa ou ausência, adjudicação compulsória; recolhimento do ITBI e registro do título.
  3. 3Acompanhamento até o registro do imóvel em nome do comprador e, se houver penhora por dívida do vendedor no curso da regularização, defesa do bem por embargos de terceiro.

Advocacia é atividade de meio: não prometemos resultado. O que asseguramos é análise técnica, informação honesta sobre riscos e alternativas, e condução diligente dos prazos.

O que mandar para a análise

Não precisa ter tudo: envie o que já tiver em mãos. O restante orientamos como obter.

  • o contrato de gaveta ou compromisso de compra e venda e os repasses posteriores (a cadeia completa)
  • todos os comprovantes de pagamento do preço
  • certidão atualizada da matrícula do imóvel
  • dados do vendedor (ou certidão de óbito e dados dos herdeiros, se for o caso)
  • comprovantes de posse (contas e IPTU em nome do comprador) e a guia do ITBI, se já emitida

Perguntas frequentes

Contrato de gaveta vale?

Vale entre comprador e vendedor e gera direitos, inclusive o de exigir a escritura. O que ele não faz sozinho é transferir a propriedade: sem registro, o comprador não é dono perante terceiros (CC, art. 1.245), e o imóvel ainda responde por dívidas do vendedor. Por isso o objetivo é levar o título a registro.

O vendedor morreu: como escrituro?

Pela adjudicação compulsória proposta contra o espólio e os herdeiros, que têm de outorgar a escritura que o falecido deveria ter dado (as obrigações se transmitem: CC, arts. 1.784 e 1.997). Com a prova da compra e da quitação, o juiz ou o registrador determina a transferência ao comprador. No cartório, sem inventário aberto, são notificados os herdeiros; havendo inventário, o inventariante (Provimento CNJ 149/2023, art. 440-W).

O que é adjudicação compulsória extrajudicial?

É a regularização feita diretamente no cartório de registro de imóveis, sem processo judicial, criada pela Lei 14.382/2022 (art. 216-B da Lei 6.015/1973) e regulamentada pelo CNJ (Provimento 149/2023, arts. 440-A a 440-AM). Cabe quando a documentação está completa e não há litígio sobre o pagamento.

Quanto tempo leva?

Depende da via e da documentação. Na via extrajudicial, o vendedor notificado tem 15 dias úteis para anuir ou impugnar (Provimento CNJ 149/2023, arts. 440-S, III, e 440-Z); a Lei 6.015/1973 (art. 216-B, § 1º, II) exige, como prova do inadimplemento, a não celebração do título de transmissão no prazo de 15 dias, contado da entrega da notificação extrajudicial, e o restante depende do cartório e da regularidade dos documentos. Na via judicial, o tempo varia com as citações, inclusive por edital, e com eventual litígio. Reunir desde o início contrato, comprovantes de pagamento e certidões evita novas exigências.

E se aparecer penhora do vendedor antes?

O comprador pode defender o imóvel por embargos de terceiro, com base na posse decorrente do compromisso, mesmo sem registro (Súmula 84 do STJ), provando que comprou antes e de boa-fé. É a defesa contra um risco que o registro do título elimina. As páginas sobre embargos de terceiro e fraude à execução tratam do tema.

Preciso pagar ITBI agora?

O ITBI é o imposto municipal devido na transmissão do imóvel (CTN, art. 35) e, em regra, precisa ser recolhido para lavrar e registrar a escritura ou a adjudicação. A base de cálculo é o valor venal, que a Lei Complementar 227/2026 definiu como o valor de mercado estimado por critérios técnicos (CTN, art. 38, §§ 1º a 3º); alíquota e procedimento seguem a lei de cada município. É um custo da regularização que deve entrar no planejamento.

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Conteúdo meramente informativo, nos termos do Provimento 205/2021 do CFOAB. Não constitui consulta jurídica nem promessa de resultado. Cada caso depende de análise individual.

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