Imobiliário & Construção · Regularizar o imóvel

Usucapião: moro há anos e não tenho escritura — como regularizar o imóvel


Por Frede Sá de Moura · Sócio · Advogado · OAB/MG 151.651 · OAB/GO 58.362Atualizado em 29/09/2026

Resposta direta

Usucapião é a aquisição da propriedade pela posse prolongada, mansa, pacífica e com ânimo de dono. Os prazos vão de 2 anos (familiar) a 15 (extraordinária), conforme a modalidade e o uso do imóvel. Pode ser feita na Justiça ou, hoje, diretamente no cartório de registro de imóveis (extrajudicial). Bem público não se usucape. Ao final, a usucapião é registrada na matrícula em nome de quem a obteve.

Imóvel em Belo Horizonte ou em outra cidade de Minas Gerais? As regras locais estão em Usucapião em BH , no Moura e Fantini.

Prazos e marcos legais

  • Usucapião extraordinária (posse sem título nem boa-fé)15 anos, ou 10 anos com moradia ou obras e serviços produtivos (CC, art. 1.238)
  • Usucapião ordinária (com justo título e boa-fé)10 anos, ou 5 anos em casos específicos (CC, art. 1.242)
  • Usucapião especial urbana (até 250 m², moradia, sem outro imóvel)5 anos (CF, art. 183 · CC, art. 1.240)
  • Usucapião especial rural (até 50 ha, torna produtiva, moradia)5 anos (CF, art. 191 · CC, art. 1.239)
  • Usucapião familiar (imóvel urbano de até 250 m², após o abandono do lar pelo ex-cônjuge ou ex-companheiro)2 anos (CC, art. 1.240-A)

Prazos e marcos conferidos na lei federal, nos atos do CNJ e na jurisprudência indicada. Exigências municipais (código de obras, taxas) e estaduais (normas dos cartórios) variam; a análise do caso confirma quais se aplicam.

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O que é usucapião e o que ela exige

Usucapião é o modo de adquirir a propriedade (ou outro direito real) pela posse exercida por certo tempo, com determinados requisitos. Em todas as modalidades, a posse precisa ser mansa e pacífica (sem oposição de quem quer que seja), contínua (sem interrupção) e exercida com animus domini, a intenção de ser dono, e não a de mero locatário, comodatário ou caseiro. Quem ocupa por permissão ou tolerância de outrem, ou paga aluguel, não tem posse ad usucapionem.

A posse pode somar-se à de antecessores (accessio possessionis), desde que todas sejam contínuas e pacíficas e, na usucapião ordinária, com justo título e boa-fé (CC, art. 1.243): quem comprou de gaveta de alguém que já possuía há anos aproveita esse tempo para completar o prazo. Na usucapião especial urbana, o STJ não admite a soma, ressalvado o herdeiro que já residia no imóvel (REsp 1.799.625/SP; Lei 10.257/2001, art. 9º, § 3º). É o que permite regularizar imóveis ocupados por sucessivos moradores. O que não se usucape é o bem público: imóveis da União, dos estados e dos municípios são insuscetíveis de usucapião (CF, arts. 183, § 3º, e 191, parágrafo único; Súmula 340 do STF).

As modalidades e os prazos

Extraordinária (CC, art. 1.238): 15 anos de posse, independentemente de título ou boa-fé; cai para 10 anos se o possuidor fixou moradia no imóvel ou nele realizou obras ou serviços produtivos. Ordinária (art. 1.242): 10 anos, exigindo justo título e boa-fé; reduz-se a 5 anos quando o imóvel foi adquirido onerosamente com registro depois cancelado, e o possuidor lhe deu moradia ou investimentos.

Especial urbana (CF, art. 183; CC, art. 1.240): 5 anos, para área urbana de até 250 m² usada para moradia, desde que o possuidor não seja proprietário de outro imóvel, e só pode ser reconhecida uma vez ao mesmo possuidor. Especial rural (CF, art. 191; CC, art. 1.239): 5 anos, para área rural de até 50 hectares tornada produtiva pelo trabalho, com moradia, também sem outro imóvel. Familiar (art. 1.240-A): 2 anos, para o ex-cônjuge ou ex-companheiro que exerce posse direta e exclusiva sobre imóvel urbano de até 250 m², de que é coproprietário com quem abandonou o lar, sem ser proprietário de outro; o limite de 250 m² refere-se à área total do imóvel (STJ, Informativo 892, 2026). Há ainda a coletiva, para núcleos urbanos informais (Estatuto da Cidade, art. 10). A modalidade depende do imóvel, do uso e do tempo de posse, e define o prazo.

A via extrajudicial: usucapião no cartório

Desde 2016, com a vigência do CPC de 2015, a usucapião pode ser processada diretamente no cartório de registro de imóveis, sem ação judicial (Lei 6.015/1973, art. 216-A, hoje regulamentado pelo Provimento CNJ 149/2023, arts. 398 a 423, que revogou o Provimento 65/2017). O pedido é instruído por advogado e inclui a ata notarial lavrada por tabelião atestando o tempo de posse, a planta e o memorial descritivo assinados por profissional habilitado (com ART/RRT) e pelos confrontantes, as certidões e os comprovantes da posse (contas de consumo e IPTU, entre outros).

É o caminho indicado quando não há litígio com o titular registral e os confinantes. O titular registral ou o confinante que não assinou a planta é notificado para se manifestar em 15 dias, e o silêncio vale como concordância (Lei 6.015/1973, art. 216-A, §§ 2º e 13). Havendo impugnação justificada, os autos são remetidos ao juízo competente; a impugnação injustificada não é admitida pelo registrador (art. 216-A, § 10, na redação da Lei 14.382/2022). A via extrajudicial não dispensa prova: exige a mesma robustez documental.

A via judicial e a prova da posse

Na ação de usucapião, citam-se o titular registral e os confinantes, estes pessoalmente, salvo em unidade de condomínio edilício (CPC, art. 246, § 3º), e os interessados incertos por edital (CPC, art. 259, I). O CPC de 2015 não repetiu a regra de intimação da União, do estado e do município que constava do art. 943 do CPC de 1973; na via extrajudicial, o registrador dá ciência a esses entes (Lei 6.015/1973, art. 216-A, § 3º). A prova central é a da posse: tempo, mansidão, continuidade e ânimo de dono, demonstrados por documentos (contas de consumo e IPTU em nome do possuidor, contratos, benfeitorias, fotos datadas) e por testemunhas. Reconhecida a usucapião, a sentença serve de título para o registro, e o possuidor passa a figurar como proprietário perante todos.

A via judicial é a adequada quando há conflito (titular que contesta, confinante que discorda, dúvida sobre limites) ou quando a documentação para a extrajudicial não pode ser completada. Em ambas as vias, o objetivo é o mesmo: a matrícula do imóvel individualizada e no nome de quem realmente o possui. As defesas de quem é réu em ação de usucapião, ou recebe notificação do cartório, estão na página sobre defesa em usucapião.

Quando não cabe e quais são as alternativas

Não cabe usucapião de bem público (Súmula 340 do STF) nem de imóvel objeto de posse precária (por permissão, tolerância, locação ou comodato), e o prazo é interrompido quando o proprietário, antes de ele se completar, propõe ação para reaver o imóvel e o ocupante é citado (CC, arts. 1.244 e 202, I); a contestação na própria ação de usucapião não produz esse efeito (STJ, REsp 1.361.226/MG). Em imóvel comprado com contrato, mas ainda no nome do vendedor, o instrumento costuma ser a adjudicação compulsória, que se apoia no contrato quitado, sem exigir a prova de anos de posse. Em loteamentos e núcleos urbanos informais, a regularização fundiária (Reurb) pode titular os ocupantes de uma só vez. Por isso a análise inicial define o instrumento adequado a cada caso.

Base jurídica

TemaFonte oficial
Usucapião extraordinária (15/10 anos)CC, art. 1.238
Usucapião especial rural (5 anos, até 50 ha)CF, art. 191 · CC, art. 1.239
Usucapião especial urbana (5 anos, até 250 m²)CF, art. 183 · CC, art. 1.240
Usucapião familiar (2 anos)CC, art. 1.240-A
Usucapião ordinária (10/5 anos, justo título e boa-fé)CC, art. 1.242
Soma das posses (accessio possessionis)CC, art. 1.243
Bem público não se usucapeCF, arts. 183, § 3º, e 191, parágrafo único · Súmula 340 do STF
Usucapião extrajudicial no cartórioLei 6.015/1973, art. 216-A · Provimento CNJ 149/2023, arts. 398 a 423
Usucapião coletiva de núcleos urbanos informaisLei 10.257/2001 (Estatuto da Cidade), art. 10
Contestação não interrompe o prazo; soma de posses na especial urbana; ocupação entre herdeirosSTJ, REsp 1.361.226/MG, REsp 1.799.625/SP, AgInt no AREsp 2.355.307/SP e AREsp 2.983.084/AL

Fontes oficiais citadas a título informativo (Prov. 205/2021 CFOAB). Cada caso depende de análise individual.

Como conduzimos um caso assim

  1. 1Análise da posse (tempo, origem, uso) e do imóvel (situação registral, confrontantes, natureza) para definir a modalidade e a via (extrajudicial, no cartório, ou judicial) e verificar se não é caso de adjudicação compulsória.
  2. 2Reunião da prova e da documentação: ata notarial, planta e memorial com ART/RRT, certidões, comprovantes de posse; notificação dos confrontantes e do titular registral.
  3. 3Condução do pedido, no cartório ou em juízo, até o registro da usucapião na matrícula, com resposta às exigências do registrador e a eventual impugnação.

Advocacia é atividade de meio: não prometemos resultado. O que asseguramos é análise técnica, informação honesta sobre riscos e alternativas, e condução diligente dos prazos.

O que mandar para a análise

Não precisa ter tudo: envie o que já tiver em mãos. O restante orientamos como obter.

  • comprovantes da posse ao longo do tempo (contas de luz/água, IPTU, correspondências, fotos datadas)
  • contrato, recibo ou "gaveta" que originou a posse, se houver, e a cadeia de ocupantes anteriores
  • certidão da matrícula ou transcrição do imóvel (ou a informação de que não há matrícula)
  • planta e memorial descritivo com ART/RRT do profissional, quando já existirem
  • dados dos confrontantes (vizinhos) e do antigo titular/herdeiros

Perguntas frequentes

Quanto tempo de posse preciso?

Depende da modalidade: 2 anos na familiar (ex-cônjuge que ficou no imóvel após abandono do lar), 5 anos nas especiais urbana e rural e em casos da ordinária, 10 anos na ordinária (com justo título e boa-fé) ou na extraordinária com moradia/obras, e 15 anos na extraordinária comum. A análise do caso indica qual se aplica.

Usucapião no cartório é possível?

Sim, desde 2016, com a vigência do CPC de 2015 (Lei 6.015/1973, art. 216-A; Provimento CNJ 149/2023, arts. 398 a 423). A usucapião extrajudicial é feita no cartório de registro de imóveis, com ata notarial, planta e memorial com ART/RRT e certidões, por meio de advogado. É indicada quando não há litígio; o silêncio do notificado vale como concordância, e a impugnação justificada leva o caso à Justiça (art. 216-A, §§ 2º e 10).

Quanto tempo demora?

Na via extrajudicial, a lei fixa 15 dias para a manifestação dos notificados e para a de terceiros após o edital (Lei 6.015/1973, art. 216-A, §§ 2º e 4º); o restante depende da documentação e das exigências do registrador. Na via judicial, o tempo varia com as citações, a instrução e a comarca. Não há prazo fixo de conclusão, porque a duração depende da complexidade da prova.

Preciso de planta e engenheiro?

Em regra sim: a planta e o memorial descritivo do imóvel, com a respectiva ART/RRT de profissional habilitado (engenheiro ou arquiteto) e a assinatura dos confrontantes, são exigidos tanto na via extrajudicial quanto, normalmente, na judicial, para individualizar o imóvel na matrícula; quem não assinou a planta é notificado, e o silêncio vale como concordância (Lei 6.015/1973, art. 216-A, § 2º). No cartório, planta e memorial são dispensados quando o imóvel é unidade autônoma de condomínio edilício ou lote de loteamento regularmente instituído (Provimento CNJ 149/2023, art. 401, § 5º).

E se o dono aparecer?

Se o titular registral impugna com fundamentos o pedido feito no cartório, o caso segue para a via judicial (Lei 6.015/1973, art. 216-A, § 10); se não responde à notificação, o silêncio vale como concordância (§ 2º). Discordar da usucapião já pedida não interrompe o prazo: para o STJ, a contestação não quebra a posse (REsp 1.361.226/MG). O que interrompe é a iniciativa do dono para reaver o imóvel antes de o prazo se completar, com a citação do ocupante (CC, arts. 1.244 e 202, I).

Imóvel de herança pode ser usucapido?

Pode, em tese, inclusive por um herdeiro em face dos demais, se ele exerceu posse exclusiva, com efetivo ânimo de dono, pelo prazo legal e sem oposição dos coerdeiros (STJ, AgInt no AREsp 2.355.307/SP). Em 2026, porém, o STJ afirmou que o descendente que ocupa imóvel de ascendente, integrante de herança ainda indivisa, em contexto de administração familiar, exerce em regra mera tolerância, e que a usucapião entre herdeiros normalmente não se sustenta (AREsp 2.983.084/AL). A análise define se o caminho adequado é a usucapião, a partilha no inventário ou a extinção do condomínio.

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Conteúdo meramente informativo, nos termos do Provimento 205/2021 do CFOAB. Não constitui consulta jurídica nem promessa de resultado. Cada caso depende de análise individual.

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